Contos..:Terceiro dia de maio.)
Não, eu não preciso disso. Ela disse, olhando-se no espelho.Sentia-se suja, podre, fétida.
Quem eu sou?, Uma respeitada senhora de familia?, ou uma prostituta vulgar que troca seu corpo por abrigo e alimento? Não queria chorar, sentia-se forte demais pra derramar lagrímas por ela mesma.Eu não mereço minhas lagrimas, repetia, até se convencer que de fato não merecia nem a si mesma.
Esse era um daqueles momentos em que se odiava e se condenava mortalmente por cada micro erro.Aquele momento sombrio onde praguejava-se e amaldiçoava-se sem rancor, já que sua carne, era a unica carne que ela poderia ferir.
Achou-se indigna, confabulou a propria sorte, contastou sua pequenez.Eu sei que nada sou! E sibilava palavras sem nexo com o rosto escondido nas mãos.Viu-se sangrando de novo,Não preciso de mais uma ferida.Não preciso de mais uma cicatriz.Não quero ter que superar de novo, Eu não preciso cair de novo.
Andava no espaço limitado do banheiro, abria torneira só pra sentir a água refrescar-lhe as mãos, sentiu frio, mas não quis desejar nada...Não podia desejar, não possuia esse direito. Não sou vítima de ninguem, a culpa é só minha, é sempre minha.Sabia-se só.Lembrou de uma voz que lhe dizia coisas incomuns, uma voz que lhe dizia coisas as quais seus ouvidos foram treinados pra não ouvir.Mas lhe fazia bem ouvir, lhe fazia bem sentir e só por lhe fazer bem, sentiu medo, terror e desconfiança.Conhecendo sua falta de sorte, sabia que coisas boas não lhe aconteciam e quando aconteciam, eram fulgazes ou, com fins tragicos.
Estava no chuveiro de novo, seu corpo estava sujo, muito sujo.Tocada sem cuidados, sem afeto,e com um estranho amor incestuoso, a flor seca, padecia em repugnância.Desejou morrer, desejou sumir, quis terminar sua existência sem nexo e burocratica demais.Sabia que não podia fazer nada disso e por saber, sentiu-se ainda pior.Quis falar a alguem tudo aquilo que lhe inflamava, sabia que não poderia falar nada, pois, se falasse, as pessoas a veriam a enxergariam em toda sua pequena humanidade.Quis chorar, mas para ela, chorar significa umidecer os olhos e não permitir que as lagrimas caiam, aprendeu a chorar assim, suas lagrimas nunca caem, elas formam poças em seus olhos tristes, mas ficam represadas alí...Quando caem, é porque ela se tornou fraca demais, o que não acontece com frequência.E mesmo sozinha, não permitiu que um unico filete rolasse em seu rosto , não gostava de ser fraca mesmo só pra ela mesma.
Sentiu que cairia,chamou um nome em vão.segurou-se em si, abraçou-se e ficou brava.''Não tenho esse direito.'' Uma hora ou outra, encontraria estabilidade e voltaria a ficar de pé...Mas não conseguiu, ficou inerte sentada no chão fazendo contas mentais tentando distrair-se.SUJA, SUJA,SUJA!
Afundou o rosto nas mãos levantou-se, apagou a luz...E uma vez, só uma vez em anos ela foi fraca.
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